
Aqui no norte, na incrível região amazônica, o clima é um tanto estranho. Temos períodos distintos para a chuva torrencial e para o sol escaldante. Mas isso pode variar. Amamos os dias chuvosos, pois é o nosso inverno (a temperatura chegar a cair para 24ºC tranquilo). Mas quando a coisa esquenta, aí que complica. Aqui em Roraima, é 45ºC facinho, facinho…
Nesse ano, tivemos cerca de quatro meses com chuvas intensas. E quando esse período acabou, entre o fim de agosto e início de setembro, não deu outra: o sol veio com tudo para cima de nossas cabeças (em tempo: abençoados sejam os inventores do ventilador e dos aparelhos de ar-condicionado).
Num desses dias de “tempestades solares”, depois do almoço, eu estava indo ao trabalho (torcendo para chegar logo à minha sala, com ar-condicionado ao máximo de frio possível), quando avistei na rua um “picolezeiro” (que é como chamamos os vendedores ambulantes de sorvetes e afins). Mesmo com problemas relacionados ao excesso de açúcar, resolvi parar para pedir alguma coisa do carrinho.
O vendedor, um haitiano, gentilmente me atendeu. Procurei em seu carrinho alguns itens (sorvetes, picolés e aquilo que chamamos aqui no Estado de “totó”, uma espécie de suco congelado. Enfim…). Enquanto eu escolhia meus produtos, tentava um diálogo com o vendedor, que se limitava a falar poucas palavras, dado o pouco conhecimento do nosso idioma.
Falei a ele que estava procurando algum desses carrinhos na rua, por causa do calor, que estava terrível e coisa e tal. Também disse que tínhamos que aguentar aquilo, já que o período chuvoso tinha acabado. E foi aí que ele, mesmo com um português bem “arrastado”, disse algo que me deixou bastante pensativo ao longo daquele dia e tem sido desde então.
“Chuva não é bom pra nós. Porque nós não ganha dinheiro. No calor a gente ganha e consegue sustentar família”
Pois é. Eu não tive reação, a não ser concordar com ele. Enquanto a gente reclama por causa do calor “desgraçado”, um pai de família estrangeiro consegue trabalhar melhor, mesmo percorrendo a pé bairros inteiros, sob um calor terrível e adquirir seu sustento. E enquanto a gente se agasalhava em casa, assistindo Netflix, durante as chuvas, talvez ele estivesse perplexo por não ter conseguido vender nada naqueles dias.
Logo descobri que ele se chama Daniel, casado, três filhos, veio a Roraima com a família tentar uma nova vida. Assim como ele, mais de 13.500 haitianos vieram ao Estado passando pela Guiana, desde 2018, como forma de fugir das mazelas em seu país natal. E eles buscam de todas as formas vencer seus desafios aqui, principalmente como vendedores ambulantes. Assim como os milhares de venezuelanos que passaram por aqui, os haitianos só querem uma oportunidade para melhorar de vida.
Desde então, tenho refletido a respeito. Temos que ser gratos por tudo, como a Bíblia nos diz (I Tessalonicenses 5.18). As coisas acontecem conosco por um motivo que talvez a gente não compreenda na hora. Até mesmo as coisas desagradáveis. Nada é por acaso. O sol pode até nos castigar com seus raios flamejantes e ser um tormento. Mas lá fora, para um pai de família, representa seu sustento.
Naquele dia eu acabei não comprando nada de Daniel. Eu, abobado, descobri que não tinha uma moeda sequer na carteira (o que deveria ter me certificado logo de início). Pedi desculpas por ter lhe tomado o tempo, mas prometi que iria compensá-lo na próxima vez que o visse na rua (em Boa Vista, isso não é nada difícil). Ele seguiu seu caminho, um tanto chateado, mas com toda razão.
Felizmente, depois de alguns dias, o reencontrei. Não estava calor como antes, por conta das chuvas que caíram recentemente (como eu disse, o clima aqui é estranho). Mesmo assim, eu fui até ele e comprei alguns de seus produtos. E quando ele foi embora, não estava mais com a cara amarrada de antes. Estava até contente. Com toda a certeza, após dois dias de chuvas, aqueles “trocados” valiam muito…

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